quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Grande Saúde (Nietzsche)

Nós, homens novos, nós que não temos nome, nós que somos difíceis de compreender, precursores de um futuro incerto – temos necessidade para um novo fim, para um novo meio, quero dizer de uma nova saúde, de uma saúde mais vigorosa, mais aguda, mais obstinada, mais intrépida e mais alegre do que foi agora qualquer outra saúde. Aquele cuja alma está ávida por ter as afeições de todos os valores que tiveram curso e de todos os desejos que foram satisfeito até o presente, de visitar todas as costas deste “mediterrâneo ideal”, aquele que quer conhecer por meio das aventuras da experiência mais pessoal, que se sente um conquistador, um explorador ideal, e que se sente também um artista, um santo, um legislador, um instruído, um sábio, um homem piedoso, um adivinhador, um divino solitário de outrora: esse terá antes de tudo necessidade de uma coisa – da grande saúde, de uma saúde que não somente se possui, mas que se deve também conquistar sem cessar, porquanto sem cessar é sacrificada e precisa ser sacrificada! E agora depois de ter estado por tanto tempo em viagem, nós, argonautas do ideal, mais corajosos talvez que o exigissem a prudência, muitas vezes naufragados e abismados, mas em melhor saúde do que se poderia desejar e permitir-se, perigosamente bem de saúde e de uma saúde sempre nova – parece-nos ter diante de nós um país desconhecido, do qual ninguém viu ainda as fronteiras, um além de todos os países, de todos os recantos do ideal conhecido até hoje, um mundo tão rico em coisas belas, estanhas, duvidosas, terríveis e divinas, que toda nossa curiosidade bem como nossa sede de possuir, saiu de seus gonzos, ai! Agora nada mais chega para nos saciar!
Como poderíamos, depois de semelhantes perspectivas e com semelhante fome na consciência, com semelhante avidez de ciência, nos satisfazer com esses homens atuais? É deplorável, mas é inevitável que não prestemos mais seriamente atenção a seus objetivos, e a suas esperanças mais dignas e talvez não pudéssemos até mesmo prestar mais atenção a isso.
Outro ideal ocorre diante de nós, um ideal singular, tentador, cheios de perigos, um ideal que não gostaríamos de recomendar a ninguém porque a ninguém reconhecemos facilmente o direito a esse ideal: é o ideal de um espírito que brinca ingenuamente, isto é, sem intenção, isso porque sua plenitude e sua força transbordam com tudo que até o presente se chamou sagrado, bom, intangível, divino; espírito para qual as coisas mais elevadas que servem, com razão de medida ao povo, significaria já alguma coisa que se assemelha ao perigo, à decomposição, ao rebaixamento ou pelo menos à convalescência, à cegueira, ao esquecimento momentâneo de si; é o ideal de um bem estar humano sobre-humano, e de uma benevolência análoga, um ideal que parecerá muitas vezes desumano, por exemplo quando se coloca ao lado de tudo que até o momento foi sério, terrestre, ao lado de toda espécie de solenidade no gesto, na palavra, na entonação , no olhar, na moral, com sua viva parodia involuntária – e com o qual, apesar de tudo, a grande seriedade só começa com o qual o verdadeiro problema é talvez somente posto, o destino da alma volta, o ponteiro caminha, a tragédia começa.